Sala 67  

Posted by [The]Lirium

Despertar pela manhã ainda oculta. Bocejar uma, ou duas vezes. Ligar a ducha e esperar que ela purifique aquela alma desbotada. Vestir-se com uma camiseta gasta de uma banda desconhecida, e calçar o velho tênis escarlate. Os cadarços, aos tornozelos.

O café que já virou chá. E a porta de madeira. Através da manhã já desperta, mas glacial.

Atravessar as ruas, calçadas, deparar-se com as mesmas pessoas, embora não lhe saiba os nomes. Ver ao longe aquele grande castelo contemporâneo, e logo sentir que a distância já está se encurtando. As escadarias: Subi-las. A ânsia é visível: Engula-a.

O Elevador. Embarcar ao lado de uma velha pomposa com seus óculos dourados Dior da década de 50, junto com uma jovem com atributos visíveis e batom rubro que contrasta nada perfeitamente com seus cabelos amarelos, e um homem ocupado demais para perceber sua presença, com seu jornal defronte a face.

A porta fecha-se, e sobe.

Segundo andar. Terceiro, uma parada. A velha sai, fazendo um barulho nervoso com seus tamancos de couro branco. As portas movem-se demoradamente.

Quarto andar e outra parada. O homem com o jornal ainda tampando-lhe a visão, sai apressado pela porta e esbarra em um jovem que ocupa seu lugar no elevador. Este olha para a loura, mas logo disfarça a entreter-se com as alças da capa de um violão.

Quinto andar. Sexto. As portas que agora abrem são para o rapaz, e para você. Os dois saem, sem olhar para a loura que passava outra camada de seu batom vermelho a preparar-se para a próxima parada.

Atravessar uma porta de vidro talhada com uma clave de sol. Nunca reparara antes no quanto uma clave de sol pode ser tão insignificantemente frágil?

Sentar-se em uma poltrona marrom, e logo ouvir um estranho barulho ao chocar-se contra suas pernas. Abaixar a cabeça e aguardar, ansiosamente.

O rapaz tira de seus bolsos uma chave, e apressa-se em abrir a primeira porta do pequeno corredor. Ele olha para você antes de entrar, mas não recebe outro olhar. Alguns minutos depois de tê-la fechado, um belo som, austero, tocado pelas cordas de uma guitarra, soa pelo sexto andar. Mas logo uma pessoa de você se aproxima, e diz que pode usar a sala 67. Já a conhece, a sala, de longa data, e por isso sorri ao levantar-se. Com oito passos.

Fechar a porta.

Aquele piano negro está a sua frente, ele tem essa mania estranha de deixar-te receoso... A imagem dele soa como uma proposta indecente de um duelo. E você, curiosamente, sempre a aceita.

Sacar o caderno de partituras, sentar-se defronte ao teclado, e colocar-se a tocar.

Suas costas eretas. As pernas que se contraem ao tocar o pedal. Seus dedos dançam como nunca. E você sente seu coração palpitar rapidamente... Fecha os olhos. Vibra. Incita. Recita. E inspira intensamente.

Sua última melodia.

Agora você está em pé, abrindo aquela grande janela que sempre te deu a visão completa daquela cidade. Sorri gentilmente para as nuvens, antes de encarar amargamente as pequenas pessoas que sempre se moveram com a rapidez de um antílope. Corram! Corram! Como correm! Mas você nunca ligou para isso. Não é?Não corra!

E como um pássaro que não possui asas...

Jogar-se contra o nada.

A cantarolar uma última melodia.



Despertar pela manhã ainda oculta. Bocejar uma, ou duas vezes (...)

This entry was posted on domingo, 20 de fevereiro de 2011 at domingo, fevereiro 20, 2011 . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

2 Murmúrio[s]

Muito interessante o blog !
Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

www.bolgdoano.blogspot.com

Muito Obrigada, desde já !

2 de abril de 2011 14:37

Escrever é elevar as palavras acima da linha horizontal do texto, dar vida a cada frase, persuadir o leitor a seguir o fio condutor da narrativa. Tens tudo isso, com pitada de lirismo, crítica social e originalidade. Cheguei ao teu blog, por indicação da profª. Elis, mas retornarei a este espaço, por vontade própria. Sucesso. Um abraço, José Roig.

http://controlverso.blogspot.com

7 de agosto de 2011 06:57

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